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Por que projetar pra família com criança pequena é diferente

O que muda quando o cliente tem filhos pequenos. Lições que aprendi depois de alguns erros e muitas conversas com mães exaustas.

Aurora Castellani

A primeira vez que projetei pra uma família com criança pequena, eu tinha 26 anos e nenhuma noção do que estava fazendo.

Fiz um projeto lindo. Mármore branco no piso da sala. Estante baixa com objetos de decoração. Mesa de centro com quinas vivas. Sofá de linho claro.

Na reunião de apresentação, a cliente olhou as imagens, sorriu educadamente e perguntou: “Aurora, você tem filhos?”

Não tinha. Não tenho até hoje. Mas aprendi, naquele momento, que existem coisas que só quem vive consegue antecipar.

A casa que funciona às 6 da manhã

Famílias com crianças pequenas não vivem a casa do mesmo jeito. Elas sobrevivem nela.

O dia começa antes do sol. Alguém está preparando mamadeira no escuro pra não acordar o resto da casa. Alguém está procurando o tênis do uniforme que sumiu. Alguém está tentando tomar café enquanto responde “por quê?” pela décima vez.

Quando entendi isso, mudou como eu penso circulação. Mudou como eu penso iluminação. Mudou como eu penso onde fica cada coisa.

Uma mãe me disse uma vez: “Eu preciso conseguir ver meu filho da cozinha enquanto ele brinca na sala.” Parece óbvio. Mas quantas plantas colocam a cozinha numa posição onde isso não é possível?

O que eu aprendi a perguntar

Hoje, quando o cliente menciona que tem filhos pequenos, minha lista de perguntas muda completamente.

Qual a idade? (Um bebê de 6 meses é diferente de uma criança de 4 anos.) Onde vocês passam mais tempo juntos? O que mais te cansa na rotina atual da casa? Tem alguém que ajuda no dia a dia?

Essa última pergunta parece invasiva, mas faz diferença enorme. Uma família com avó presente projeta diferente de uma família onde os pais trabalham o dia todo e chegam exaustos às 19h.

Pergunto também sobre o futuro. Criança de 2 anos vira criança de 5 em um piscar. A casa precisa acompanhar, pelo menos um pouco.

As coisas que não estão no briefing

Ninguém pede “quero um lugar pra esconder a bagunça quando visita chega de surpresa”. Mas todo mundo precisa.

Ninguém fala “preciso de uma superfície onde meu filho possa derramar suco sem eu ter um colapso”. Mas é essencial.

Ninguém menciona “quero conseguir dar banho nas crianças e ainda ter energia pra fazer o jantar”. Mas o layout do banheiro e da cozinha pode ajudar ou atrapalhar nisso.

Meu trabalho é ouvir o que não está sendo dito. Observar. Às vezes visito a casa atual e fico meia hora só olhando como a família se movimenta. Onde a mãe deixa a bolsa. Onde o pai senta pra trabalhar. Onde a criança brinca quando os pais estão cozinhando.

Sobre materiais: a batalha que você não vai vencer

Mármore branco com criança pequena? Não. Simplesmente não.

Aprendi a ser honesta sobre isso. Alguns materiais são lindos e completamente incompatíveis com a fase que a família está vivendo. Não é pra sempre. Mas é pra agora. E agora dura uns bons anos.

Porcelanato acetinado limpa fácil e não mostra cada marca de mão. Tecidos com tratamento antimanchas existem e são aliados. Tintas laváveis não são frescura, são sobrevivência.

E sempre, sempre, incluo algum espaço que a criança pode “destruir” sem culpa. Um canto com tapete lavável, parede de lousa, caixas acessíveis. Lugar onde ela pode ser criança sem ouvir “cuidado” a cada cinco minutos.

A cozinha é o centro de tudo

Em casas com crianças pequenas, a cozinha não é só onde se cozinha. É onde se faz lição. Onde se brinca de massinha enquanto o jantar fica pronto. Onde acontecem as conversas mais importantes do dia.

Projeto cozinhas pra essas famílias pensando em múltiplos usos. Ilha com banquetas onde a criança pode ficar perto sem estar no caminho. Gavetas baixas com coisas que ela pode pegar sozinha (copos de plástico, guardanapos). Outras gavetas com trava, porque obviamente.

Iluminação que funciona pra cozinhar, mas também pra fazer tarefa. Tomadas em lugares estratégicos pro liquidificador e pro carregador do tablet que vai entreter a criança enquanto você termina o arroz.

O quarto que cresce junto

Quarto de criança é um dos projetos que mais me dá alegria. E mais frustração.

A frustração vem de saber que aquele móvel planejado lindo vai ser pequeno em 3 anos. Que a decoração de dinossauro vai virar constrangimento em algum momento. Que a cama montessoriana perfeita vai precisar virar cama de verdade.

A alegria vem de projetar pensando nisso. Bases neutras que aguentam mudança de tema. Móveis que podem ser reconfigurados. Espaço que permite crescer sem precisar reformar.

E sempre, sempre, um lugar pro adulto. Uma poltrona confortável pro pai que lê história. Um canto onde a mãe pode sentar quando o filho está doente. Quarto de criança não é só da criança.

Sobre segurança: o óbvio que a gente esquece

Depois de anos projetando pra famílias, desenvolvi um checklist mental que rodo em cada projeto.

Quinas. Todas elas. Mesa, bancada, móveis. Quina viva na altura de cabeça de criança é acidente esperando acontecer.

Janelas. Altura do peitoril, tipo de abertura, trava. Criança é curiosa e escaladora profissional.

Escadas. Se tem escada, tem que ter solução de bloqueio que funcione no dia a dia. Portãozinho que ninguém fecha porque é muito complicado não serve pra nada.

Tomadas. Altura, proteção. Parece básico, é básico. E ainda assim eu vejo projeto sem pensar nisso.

A casa imperfeita que funciona

Sabe qual foi o melhor elogio que já recebi de uma cliente com filhos pequenos?

“Aurora, a casa não é a mais bonita que eu já vi. Mas é a que eu consigo viver.”

Parecia crítica. Não era. Era exatamente o ponto.

Casa pra família com criança pequena não é pra impressionar visita. É pra funcionar às 6 da manhã. É pra sobreviver ao suco derramado. É pra permitir que aqueles anos intensos, exaustivos, maravilhosos sejam vividos sem a casa atrapalhando.

A beleza vem de outro lugar. Vem da família usando cada canto. Vem das marcas de mão na parede que um dia vão fazer falta. Vem da vida acontecendo.

Aquela cliente do mármore branco? Voltou pra mim anos depois, pra um novo projeto. Dessa vez eu sabia as perguntas certas. E ela sabia que eu ia ouvir as respostas.


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