Por que eu parei de fazer cronogramas otimistas
Como montar um cronograma de obra que funciona na prática. Menos teoria, mais realidade de canteiro.
Meu primeiro cronograma de obra tinha 47 linhas no Excel. Cada tarefa com data de início, data de fim, responsável. Tudo colorido, formatado, bonito. Mostrei pro cliente com orgulho.
A fundação estava prevista para 3 semanas. Levou 6.
Na semana 4, o cliente já estava perguntando o que tinha dado errado. Na semana 6, ele parou de perguntar. Só olhava pro cronograma com aquela cara de “você não sabe o que está fazendo”.
O problema não era o Excel. O problema era eu.
O erro que todo mundo comete
Cronogramas de obra mentem. Não por má fé, por otimismo. A gente olha pra tarefa e pensa “se tudo der certo, leva X dias”. Aí coloca X dias no cronograma.
Mas em obra, nada dá certo. Chove na semana da concretagem. O fornecedor atrasa o cimento. O pedreiro falta segunda-feira. O cliente muda de ideia sobre a posição da janela.
Eu aprendi a multiplicar minhas estimativas por 1.3. Não é pessimismo. É realismo. E sabe o que acontece? Às vezes entrego antes do prazo. Cliente fica feliz. Eu fico menos estressado.
Gantt não é sobre fazer gráfico bonito
Todo mundo conhece gráfico de Gantt. Barrinhas horizontais, linhas conectando tarefas, visual profissional. Ótimo pra mostrar pro cliente.
Mas o valor do Gantt não está no gráfico. Está nas dependências.
Quando você desenha que a estrutura só começa depois da fundação curar, e que as instalações precisam terminar antes do reboco, você está mapeando o caminho crítico. A sequência de tarefas que, se atrasar, atrasa tudo.
Descobri isso tarde demais numa reforma. Achei que podia adiantar a marcenaria enquanto esperava o porcelanato chegar. Não podia. O marceneiro precisava do piso pronto pra tirar medida do rodapé. Resultado: três semanas de atraso porque não pensei na dependência.
Como eu monto cronograma hoje
Primeiro, converso com o mestre de obras. Não com o projeto na mão, mas com perguntas abertas. “Quanto tempo você leva pra fazer uma fundação desse tamanho?” A resposta dele vale mais que qualquer tabela de produtividade.
Segundo, penso em pacotes, não em tarefas. Fundação. Estrutura. Alvenaria. Instalações. Cobertura. Acabamento. Dentro de cada pacote, algumas tarefas principais. Mas não exagero no detalhe. Cronograma com 200 linhas é cronograma que você abandona na segunda semana.
Pra obra residencial típica, 30 a 40 linhas resolve. Mais que isso e você está microgerenciando.
Terceiro, e isso é importante: eu documento as premissas. “Fundação estimada em 5 semanas considerando equipe de 3 pedreiros e tempo seco.” Quando atrasa, eu sei o que mudou. Quando o cliente pergunta, eu tenho resposta.
As etapas que sempre dão problema
Fundação: todo mundo subestima a cura do concreto. Não são só 7 dias de calendário. São 7 dias de cura adequada. Se choveu demais, se fez muito frio, pode precisar de mais tempo. E carregar a estrutura antes da cura completa é pedir problema.
Instalações: aqui é onde a comunicação falha. O eletricista agenda pra terça, mas a alvenaria não vai estar pronta. Ou pior: está pronta, mas ninguém avisou ele. Coordenação de equipes terceirizadas é um trabalho em si.
Acabamento: a etapa mais longa e mais imprevisível. Porque envolve escolhas do cliente (qual porcelanato? qual cor da parede?), fornecedores diferentes (marceneiro, marmorista, vidraceiro), e uma sequência rígida que ninguém respeita. Você não pode pintar antes do gesso. Não pode colocar piso antes do reboco secar. Não pode instalar bancada antes do piso.
Eu já vi obra atrasar 3 semanas porque o cliente demorou pra escolher a cor do rejunte. Três semanas. Por causa de rejunte.
Sobre buffers
Adiciono margem em tudo? Não. Só no caminho crítico.
Se o marceneiro atrasar uma semana, provavelmente não afeta a entrega final. A marcenaria geralmente não está no caminho crítico. Mas se a estrutura atrasar uma semana, tudo depois dela atrasa junto.
Minha regra: 20% de buffer nas tarefas críticas. Zero nas outras. Isso mantém o cronograma realista sem inflar demais o prazo total.
E quando uso esse buffer? Nunca conto pra equipe que ele existe. Pra eles, o prazo é o prazo apertado. O buffer é meu, pra absorver imprevistos sem precisar renegociar com o cliente.
O que eu mostro pro cliente
Duas versões do cronograma. Uma simplificada, com os marcos principais: fundação pronta, estrutura pronta, “no seco”, acabamentos, entrega. Essa é a que ele vê.
A outra, detalhada, fica comigo e com o mestre. Com todas as tarefas, dependências, responsáveis. Essa é a ferramenta de trabalho.
Por quê? Porque cliente não precisa saber que “execução de contrapiso” está atrasada dois dias. Ele precisa saber se vai receber a casa no prazo. Informação demais gera ansiedade desnecessária.
Atualizar é mais importante que criar
O melhor cronograma do mundo não serve de nada se você faz uma vez e nunca mais olha.
Toda sexta-feira, 15 minutos. O que foi feito essa semana? O que estava planejado e não aconteceu? Por quê? O que muda nas próximas semanas?
Essa rotina simples me salvou várias vezes. Porque quando você atualiza semanalmente, percebe o atraso quando ele tem 3 dias. Não quando tem 3 semanas.
E mais: você constrói um histórico. Na próxima obra, quando for estimar quanto tempo leva uma fundação, você não vai chutar. Vai olhar o registro da obra anterior.
A real sobre prazos
Depois de algumas dezenas de obras, desenvolvi uma intuição. Sei que fundação de casa térrea leva 4 a 5 semanas. Que estrutura de sobrado leva 6 a 8. Que acabamento sempre, sempre, leva mais do que eu acho.
Mas intuição não substitui processo. Continuo fazendo cronograma, continuo atualizando, continuo documentando. Porque a intuição falha quando a obra é diferente do padrão. E toda obra é diferente do padrão de alguma forma.
O segredo não é fazer cronograma perfeito. É fazer cronograma honesto, atualizar com frequência, e ter histórico pra aprender com os erros.
Aquele primeiro cronograma de 47 linhas? Guardo até hoje. Pra lembrar de nunca mais prometer 3 semanas de fundação.
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